quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O Mal

Escrevi há pouco tempo atrás um texto chamado indignação, e recebi um comentário no meu blog que me deixou preocupada. O comentário era de apoio ao meu texto, mas estava “um pouco” equivocado. Por isso resolvi escrever sobre o tema: O MAL.
Percebo que muitos bruxos vem interpretando erradamente o fato de não acreditarmos na personificação de um diabo, de não cremos na figura de um demônio de chifres, vermelho, com um tridente nas mãos e um rabinho de seta.
Sem dúvida alguma, esta imagem propagada do diabo é uma alusão ao nosso Deus, esse sim, Senhor dos Chifres, referência ao fato de ser o Provedor, o Grande Caçador. O Tridente, também utilizado grandemente pelo nosso Deus, como símbolo fálico, assim como outros símbolos associados ao paganismo foram deturpados em favor do cristianismo que obrigavam aos pagãos a engolirem goela abaixo o cristianismo por ocasião da inquisição.
Vimos então, que a imagem de nosso Deus viril, guerreiro, caçador, foi deturpada, manchada pela imposição da igreja católica, e assim tivemos que esconder do mundo a imagem de força e poder que atribuímos a nosso Deus.
Acredito que esses fatos sejam de conhecimento de todos aqueles que buscaram conhecer o princípio de nossa religião e compreenderam que nosso Deus não tem nenhuma associação com o diabo cristão, ou com qualquer tipo de referência demoníaca. E por isso, podemos afirmar categoricamente que nós, pagãos, não acreditamos no diabo, não acreditamos no demônio. E foi desta afirmação que derivou o “equívoco” do qual me refiro.
Já ouvi diversas vezes pessoas afirmando que nós não acreditamos no demônio, no diabo, que não acreditamos no mal. Êpa! Aí está o grande erro!
Não acreditar no demônio, no diabo, não pode fazer com que neguemos a existência do mal.
Bruxos e bruxas do meu Brasil, creio que serei a portadora de más notícias: O MAL EXISTE!
O mal existe e está espalhado pelo Universo de várias formas.
Como posso negar que a violência é fruto do mal? Como posso negar que alguém que obriga uma pessoa a fazer sexo contra sua vontade, cometendo a abominação que é o estupro não esteja fazendo o mal, não seja portadora do mal?
Como posso negar que os maltratos cometidos contra animais, crianças, mulheres, idosos não sejam frutos do mal?
Não posso negar que pessoas são movidas pelo mal, e essas sim são personificações da energia negativa.
Como posso negar que algumas pessoas adquirem conhecimentos mágicos para agirem CONTRA outras pessoas, ocasionando assim o MAL em suas vidas através de rituais e feitiços.
Eu não posso negar que o mal age, que o mal existe, que o mal espreita nossa vida. E isso não tem nada haver com o demônio ou diabo, tem haver com energia sutil, energia negativa propagada através dos séculos, a mesma energia destrutiva negativa que fez com que milhares de pessoas morressem nas fogueiras e forcas da inquisição, ou sobre tortura inenarrável.
Ninguém pode negar que o mal residia em cada campo de extermínio de judeus, e que esse mesmo mal esteve sim personificado em várias figuras conhecidas de nossa história.
Bruxos, bruxas, irmãos na arte, abram seus olhos, abram a mente para compreender que o mal existe, e que só reconhecendo isto e enfrentando o mesmo de frente é que podemos dizer que somos guerreiros da luz, filhos e filhas amadas da Deusa.
Estamos sobre uma lei: “FAÇA O QUE QUISERES DESDE QUE NÃO FAÇA MAL A NINGUÉM.” A nossa Lei por si só é uma afirmação de que o mal existe, então como alguns podem negar?
Nossa Lei não admite modificações, não existem filhos prediletos da Deusa com permissão para infringir esta lei. Ela não está aberta a modificações. Reflitam sobre o tema e tirem vocês mesmos suas conclusões.

Nôra Shannon

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Indignação



Há muitos anos atrás, quando ouvi o Chamado da Deusa, eu não tinha idéia de que o caminho Dela era o caminho da arte mágica, o caminho das Bruxas. Meu chamado se deveu a uma cura que foi estabelecida em minha família, e o fato da Deusa ter tocado a minha alma, trazido de volta à vida daquele que eu tanto amava, mudou definitivamente a minha própria vida.
Durante anos celebrei a Lua sem saber que celebrava rituais chamado Esbats, e aos poucos compreendi que o movimento da natureza, os ciclos, os solstícios e equinócios também deveriam ser celebrados, pois também moviam a natureza humana.
Até que eu ouvisse que eu era uma bruxa, ou wicca, apenas celebrava a natureza, agradecia pela vida nas Luas Cheias e introduzia a meus pequenos rituais elementos que acreditava ser de grande importância (incensos, cristais, água, velas e ervas). Vi que a Grande Mãe, aquela que havia me chamado, tinha feito tudo com perfeição e que na Energia da Natureza, eu sempre encontraria meios para resolver nossos problemas.
Compreendi que cada pedra emanava uma energia diferente, e que para cada momento eu poderia utilizar essa energia específica para auxiliar na solução de problemas, para enfrentar obstáculos ou mesmo para atrair energias positivas. E assim também se fazia com as ervas. Nesta ocasião senti necessidade de me aprofundar mais no conhecimento sobre cristais, ervas, cores e de toda energia que pudesse ser emanada de instrumentos ou elementos da natureza.
Esse caminho sempre me fascinou, a cada descoberta eu me apaixonava mais pelo Caminho Dela. Os astros, as estrelas, a própria Terra falavam comigo com um sussurro suave que só os ouvidos mais conectados podem perceber.
Eu percebia a cada dia, que não só a minha vida havia mudado, mas que eu poderia auxiliar muitas pessoas a transformarem também suas vidas. E essas pessoas começaram a chegar, pedindo auxílio, ajuda, e assim vi muitas curas serem estabelecidas, através da energia que eu havia aprendido a vivenciar.
Metade da minha vida eu tenho me dedicado a este caminho, que não é um caminho fácil, nem sempre é tão glamoroso quanto alguns imaginam que seja, mas é um caminho de conquistas e vitórias. Outrora eu era uma moça de 20 anos encontrando a Energia Feminina e abraçando a Lua como uma Mãe, hoje sou uma mulher nos meus 40 anos, consciente da responsabilidade de ser uma Sacerdotisa Dela, tarefa essa muito difícil.
Durante esses 20 anos, venci preconceitos, estigmas, enfrentei os Tabus sociais. Tenho orgulho de ser Bruxa, e sou Bruxa com “B” maiúsculo porque sei da importância de seguir esse caminho trilhando sempre pelo caminho mais árduo, o caminho do bem, aquele caminho que leva a risca a nossa máxima lei: “Faça o que quiser, desde que não faça mal a ninguém.”
Procuro passar adiante sempre, todo o conhecimento que adquiri nestes anos de celebração e magia. Tenho prazer de falar para aqueles que têm a certeza deste ser também o seu caminho. São tantas coisas para serem ensinadas. A grande maioria destas informações obtive sozinha, durante as celebrações solitárias, durante minha caminhada, aprendendo, errando, consertando e seguindo adiante para não cometer erros passados, e agora tenho a oportunidade de passar esse conhecimento fazendo com que as pessoas que me ouvem não cometam os mesmos erros que cometi, e fazendo assim um grande avanço no caminho daqueles que estão iniciando sua jornada.
E é por isso que estou escrevendo agora este texto, porque me sinto indignada de ver tantos simpósios, congressos, workshops, palestras pelo Brasil afora, ministradas por pessoas que se dizem sérias e que tem acesso a tantos adolescentes e iniciantes ávidos de informação, palestras sobre temas como: demonologia, hoodoo, famaliá, etc. e me pergunto: Qual o objetivo disto? E não consigo encontrar respostas. Mas me faz lançar uma pergunta: Por que não ensinar algo realmente construtivo para a vida destas pessoas? Por que não ensinar o poder curador das ervas, das mãos, dos cristais, das cores? Será que para atrair adolescentes há de se falar do mal e destrinchar assuntos que não trarão crescimento algum? Por que não ensiná-los a celebrar e a vibrar a energia de um Sabat?
Não posso acreditar que para atrair pessoas para um evento se tenha que vibrar a energia do mal. Antes eu achava que isso era um fato isolado de um grupo pequeno de pessoas, mas agora vejo várias pessoas seguindo esta mesma linha. Isso me deixa aborrecida sim, porque metade da minha vida foi dedicada a acabar com o estigma que existe no nome “Bruxa”, e hoje quando se vê o anúncio de uma palestra ou algo assim ligado a bruxaria ou paganismo, lá está o mal sendo anunciado.
Ser Bruxa(o) é mais que isso.
Nôra Shannon